Hoje vou partilhar na íntegra, e em primeira pessoa a experiência da Débora. Digo desde já que mexeu muito comigo.

 

Olá, chamo-me Débora Pina e sou assistente de bordo.

Em 2018 decidi emigrar por razões de trabalho, pois sempre sonhei ser uma assistente de bordo e foi lá fora que tive essa oportunidade.

A Arábia Saudita foi o país que me abriu as portas, e fiquei lá quase um ano entre a cidade de Jeddah e Riyadh, para depois mais tarde ir para os Emirados Árabes Unidos em Abu Dhabi emigrar outra vez, e aqui estou já há 4 anos.

Quando emigrei tive vários momentos difíceis, poderia dizer que foi o choque cultural e tal, mas por mais estranho que pareça senti-me em casa. Como as mulheres andavam tapadas, pensei: já posso cuidar melhor do cabelo. Ninguém bebia pois é proibido, piscinas e ginásios só para mulheres e as chamadas para as orações, o qual ajudou-me, e muito, pois comecei a orar mais por influência do país.

Para começar, quando resolvi tomar a decisão de lutar por esse sonho de infância, de ser assistente de bordo, que por sua vez tinha deixado de lado por dizerem que não é uma profissão honrosa, e que tem fama disto e daquilo. O que piorou ainda mais quando disse qual era o país. Não tive apoio de ninguém, salvo uma amiga e a minha mãe.

Aí é que começaram os tais comentários, comentários esses que eram muito negativos a meu respeito.

Por isso quando tomares uma decisão analisa bem com quem partilhas, eu não disse a ninguém. Só quando tive a resposta positiva é que contei a quem era do meu círculo. E quando tive o visto e o resto da papelada pronta é que informei os restantes.

Sempre que voltava para casa (Portugal) descobria sempre uma nova história a meu respeito, ao invés de me perguntarem diretamente.

Com isso perdi muitas amizades, pois quando sais do teu “círculo” consegues ter uma visão melhor das pessoas que te rodeiam, ou seja consegues ver como os teus pais veem quem anda contigo.

E a solidão, pois é muito difícil encontrares alguém que te estenda a mão genuinamente sem querer algo em troca.

Quando emigras para um lugar totalmente desconhecido, sem familiares, amigos, pessoas que te rodeiam, e o principal, sem uma igreja para comungar é muito difícil. Aí vais saber quem tu és de verdade, qual a tua condição espiritual e que tipo de valores tens.

Por várias vezes chorei pois sentia-me completamente sozinha, só eu e Deus mesmo.

Ele foi e sempre será o meu melhor Amigo.

Nos tempos em que não tinha com quem contar, falar, só Ele é que esteve por perto.

Nos tempos em que precisei de uma orientação foi Ele quem me deu. Apesar que muitas vezes, muitas mesmo, quis desistir e abrir mão de tudo pois tinha chegado a um ponto em que estava muito difícil de suportar.

Mas aí ouvia os louvores, participava das reuniões pela Univer, até que mudei para os Emirados, onde já existe igreja.

Lembro-me de uma vez estar num voo, quando morava na Arábia Saudita, de uma colega minha, que não conhecia de lado nenhum, nunca tinha visto, nem cumprimentado, simplesmente dizer: ” – Tu tens cara de quem quer ir para a igreja!”.

Quando ela disse isso eu quis chorar, mas tive que segurar as lágrimas porque se descobrissem seria um problema grande. Depois trocamos contatos e descobri que há comunidades cristãs que se reúnem em secreto, como era antigamente.

Se não tivesse me aproximasse Dele, provavelmente já teria voltado para o mundo, pois uma coisa é estar no mesmo ambiente em que todos buscam, e há atividades que te façam permanecer. Outra coisa é quando tudo te é proibido e o risco de seres morta é grande. Graças a Ele, que sempre me deu sabedoria para falar com as pessoas, tenho conseguido permanecer. E o engraçado é que sempre respondia às perguntas com uma outra pergunta, pois o diabo tentava, e não era pouco.

Se eu não tivesse emigrado provavelmente a minha vida seria a mesma vida de sempre, a mesma velha Débora, que não se desafiava, super fechada, super difícil 

de se comunicar, ainda seria a menina que trabalhava na loja da EDP (nada contra, éramos uma equipa pequenina mas com pessoas super queridas).

Não saberia do que realmente sou capaz, de que poderia enfrentar as minhas próprias limitações que eu mesma colocava, e o que os outros diziam.

Não me conhecia, pois acredito que tu só começas a conhecer-te quando sais do teu meio, sem apoio, sem o conforto que tens pois não tens mais “vozes”, opiniões de outras pessoas, direção dos outros, para te dizer o que fazer, como se comportar. Pois às vezes não somos o que realmente somos para não desagradar os outros e vestimos a capa daquele personagem.

Quando emigras és só tu, e o teu eu literalmente 24/7. Agora sim posso dizer que sou a minha melhor amiga, tenho muita coisa para mudar e crescer, mas já não tenho medo de estar sozinha comigo mesma.

Para alguém que pensa em emigrar só digo vai!

Enfrenta os teus medos, vai para o desconhecido, leva sempre Deus contigo pois nos momentos mais difíceis e até nas vitórias, é Ele quem vai estar do teu lado.

Planeja tudo direitinho, prós e contras, se realmente estás ciente do que será.

Débora Pina

Assistente de bordo, Emirados Árabes Unidos